terça-feira, 31 de maio de 2011

Primeira escola verde do Brasil já “dá frutos” no Rio

Beneficiados pela iniciativa, alunos da rede pública afirmam que estão "num padrão acima" das escolas particulares

Flávia Salme, iG Rio de Janeiro | 30/05/2011 07:57

É na zona oeste da cidade do Rio que foi instalada a primeira escola verde do país. Resultado de uma parceria público-privada, está localizada no bairro de Santa Cruz, que possui um dos IDHs mais baixo da capital: 0,742. Quanto mais perto de 1, mais desenvolvida é a região - na Gávea, bairro nobre da zona sul carioca, o índice é 0,970.

Novidade que chama a atenção dos moradores, o Colégio Estadual Erich Walter Heine conta com painéis solares, reaproveitamento da água da chuva, iluminação natural e, claro, área para reciclagem. Embora aberta há apenas três meses, a escola já dá frutos: tem gente levando para casa o que aprendeu na sala de aula. “Meu pai montou um sistema de captação da água da chuva lá em casa”, conta o estudante Hebert Elias Sanches, de 17 anos. “Usamos para lavar a roupa, limpar o quintal e sanitários. A conta d’água está mais barata”, afirma.

Foto: Léo Ramos

Plantas foram integradas à estrutura física no chamado "telhado verde";

ajuda a reter água para reuso, favorece o clima e neutraliza emissões de carbono


Na escola, além de lições de sustentabilidade, o ensino é profissionalizante. Alunos de 14 a 17 anos recebem aulas técnicas de administração. Em meio a ensinamentos de logística e afins, também chama atenção dos estudantes o “telhado verde”, que pode ser visitado pela comunidade escolar. E, no futuro, também por moradores, já que a direção faz planos de abrir as portas do colégio nos finais de semana. Funciona assim: plantas espalhadas pela cobertura ajudam a reter a água da chuva, reduzir o calor e, de quebra, neutralizar as emissões de carbono.

Foto: Léo Ramos Ampliar

Arquitetura também priorizou a acessibilidade: na escola não há escadas, somente rampas de acesso; informações em braile também fazem parte da rotina

Painéis solares aquecem a água do vestiário, mas a economia de energia também é garantida por lâmpadas LED e sensores de presença que desligam automaticamente luzes e aparelhos de ar-condicionado na ausência de pessoas no local.

O gerente de projetos da Secretaria Estadual de Educação, Sérgio Menezes, afirma que existem apenas 120 escolas como essa no mundo, sendo 118 delas nos Estados Unidos.

Na escola carioca, a água da chuva é captada e armazenada para depois ser usada nos sanitários, jardins e na lavagem dos pisos.

“A redução de água potável chega a 50%”, diz William Nogueira, gerente de relações institucionais da siderúrgica ThyssenKrupp CSA, que patrocinou a iniciativa, com R$ 11 milhões. “Todas as madeiras utilizadas na construção são certificadas. Além disso, os vidros das janelas filtram os raios solares, o que proporciona conforto térmico e economia de energia. É preciso ressaltar que o conceito da acessibilidade está por toda a escola, para facilitar a rotina dos portadores de necessidades especiais”, destaca Nogueira.

Foto: Léo Ramos Ampliar

A estudante Natália diz que agora ações voltadas para a sustentabilidade entraram em prática em sua vida

Por e-mail, a arquiteta responsável pelo projeto, Maria José Gerolimich, da Arktos Arquitetura Sustentável, explica que a escola foi construída em forma de catavento, de maneira que o ar circule por todo o espaço.

O teto, que favorece a iluminação natural, conta com áreas abertas que fazem com que o ar quente suba e se dissipe como em uma chaminé.

“Muitos desses conceitos eu conhecia apenas na teoria. Agora, virou prática mesmo. E estou adorando, porque dá para ver os resultados”, comemora a estudante Natália Duarte da Silva Serra, de 14 anos.

Projeto pedagógico

Os 200 alunos matriculados no Colégio Estadual Erich Walter estudam em horário integral: das 7h às 17h dividem as aulas convencionais de Matemática, Ciências e Português com o curso técnico.

Para tornar a rotina dos alunos mais interessante, as disciplinas foram integradas umas às outras. “Por exemplo, as aulas de matemática conversam com outras disciplinas, como estatística, por exemplo. Esses professores interagem e podem até aplicar provas em conjunto”, diz Sérgio Menezes, gerente de projetos da Secretaria de Educação. “Os alunos também cultivam uma horta orgânica na escola, e o que for colhido irá direto para a cantina onde eles almoçam. Enquanto o professor de biologia explica as características de alguns alimentos, o de química fala sobre o solo. É tudo integrado”, acrescenta.

Foto: Léo Ramos

Alunos no pátio da escola: ventilação, luz natural e madeiras certificadas

Entrar para o Erich Heine não foi fácil. De acordo com a secretaria de Educação 1.837 alunos disputaram as 200 vagas disponíveis. Professores passaram por um rigoroso processo de seleção: foram 741 inscritos para 21 vagas. A direção também foi selecionada por concurso.

Além disso, os docentes foram submetidos a um treinamento, já que ThyssenKrupp CSA, co-gestora do projeto, contratou uma consultoria pedagógica para desenvolver conteúdo próprio para a escola.

Como trabalham em regime de dedicação exclusiva, os professores da escola ganham um pouco mais que os demais que integram a rede estadual. “Eles contam com um acréscimo de cerca de R$ 800, por meio de gratificação garantida pela ThyssenKrupp CSA", esclarece Menezes.

O gerente de projetos da Secretaria de Educação do Rio diz que a siderúrgica, cuja sede fica no bairro de Santa Cruz, atendeu a sugestão do Estado de construir a escola porque há na região carência da mão de obra qualificada. “Não temos dúvidas de que os alunos da escola sairão todos empregados ou em estágios. A demanda é grande”, assegura Nogueira.

Nas aulas de administração, os alunos recebem noções de logística, marketing, aprendem a redigir um contrato social e recebem aulas de informática. “Todos vão ganhar, em breve, notebooks que serão doados pela empresa”, diz Nogueira.

"Acima das particulares"

Pelos corredores, a empolgação é grande. “Tenho certeza de que estou em um nível bem acima que o de muitos alunos matriculados em boas escolas particulares”, diz o aluno Hebert Elias. “A proposta é muito legal, nem vejo o dia passar. E olha que fico aqui o dia inteiro”, reforça a estudante Raysa dos Santos, de 16 anos.

Foto: Léo Ramos

Alunos no laboratório de informática: monitores de LCD que reduzem o

consumo de energia em 5%


O Colégio Estadual Erich Walter Heine é terceira escola técnica conceitual inaugurada pelo governo do Rio. A primeira foi a Nave (Núcleo Avançado em Educação), em parceria com o instituto Oi Futuro, voltada para o ensino tecnológico. A segunda foi a Nata (Núcleo Avançado em Tecnologia de Alimentos), em ação conjunta com a Secretaria Estadual de Agricultura e o grupo Pão de Açúcar. O governo do Estado estabeleceu a meta de construir 11 escolas técnicas e conceituais até 2014.

De acordo com o gerente de projetos da Secretaria de Educação, o governo do Estado acaba de autorizar a implantação de uma nova escola técnica em Paraíba do Sul, no Centro Fluminense, em parceria com o grupo Lemgruber. "Será mais um centro do Ensino Médio Integrado de Parceria Público-Privada (EMIPP), voltado para formação de mão de obra técnica em Química, já que é grande a carência desse profisisonal na região", antecipa Sérgio Menezes.

O telhado verde em detalhes: virou atração entre os alunos
Foto: Léo Ramos

O telhado verde em detalhes: virou atração entre os alunos

Fonte: http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/primeira+escola+verde+do+brasil+ja+da+frutos+no+rio/n1596983937508.html#4

sábado, 28 de maio de 2011

Eles não prestaram vestibular, mas entraram na Unicamp

Alex Tomás de Aquino, de 17 anos, não se inscreveu no vestibular para a Universidade de Campinas (Unicamp) no ano passado. Apesar de se destacar entre os alunos do 3º ano do ensino médio da escola estadual Álvaro Cotomacci, na mesma cidade, ele imaginava que não teria chance de conseguir uma vaga na instituição de nível superior que mais admira, concorrendo com estudantes de cursinhos e das melhores escolas do País.

Foto: Cinthia Rodrigues

Alex e restante da turma em seu 1º ano na Unicamp, mesmo sem prestar vestibular

A história é muito parecida com a de Talita Nicacio, Josiane dos Santos, Yasmin Almeida, Anderson Pimentel e da maioria dos alunos da primeira turma do Programa de Formação Interdisciplinar (Profis) da Unicamp, que começou este ano. Todos foram selecionados por ter o melhor desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em comparação aos colegas que cursaram a mesma escola – e não a candidatos em geral.

O formato gerou críticas por ser um programa de inclusão que restringia o público à cidade de Campinas. No ano passado, a Justiça vetou uma iniciativa da Universidade Federal do Rio de Janeiro que tentava destinar 20% das vagas apenas a estudantes de escolas públicas fluminenses.

Na Unicamp, no entanto, o reitor Fernando Costa diz que o principal objetivo não é ajudar os alunos das escolas públicas a entrar na universidade, mas o contrário: garantir que a academia não perca os maiores talentos por eles não estudarem em boas escolas. No projeto piloto em andamento, com apenas 120 vagas, a abrangência territorial teria de ser pequena para que não voltasse a haver uma seleção entre escolas, em vez de alunos. “Se eles tiveram o melhor desempenho possível naquelas condições, muito possivelmente serão ótimos estudantes de nível superior também.”

Crítico do vestibular como única forma de admissão, ele espera que o Profis dê pistas de como a Unicamp e outras instituições brasileiras possam incluir seleções mais criativas e inteligentes. “A verdade é que se um estudante fizer cursinho ano após ano, uma hora ele passa, mas muitas pessoas com potencial podem ser desperdiçadas por não terem feito uma escola que proporcionasse o mínimo”, explica.

Se eles tiveram o melhor desempenho possível naquelas condições, muito possivelmente serão ótimos estudantes de nível superior também”

O projeto não deixa de ser de inclusão. Dados preliminares da equipe de acompanhamento do Profis mostram que o porcentual de negros inscritos na instituição pelo programa é cinco vezes maior do que a média pelo vestibular. O mesmo ocorre com a renda familiar. Enquanto entre os 3 mil alunos que ingressam na universidade pelo vestibular apenas 9% tem renda familiar entre 1 e 3 salários mínimos, essa é a faixa de rendimento em que estão 47% dos ingressantes pelo novo programa.

“O perfil da turma tem a mesma diversidade do jovem desta idade no Estado de São Paulo”, diz o pró-reitor de Graduação, Marcelo Knobel.

Curso superior básico

Se não teriam conhecimentos básicos para passar no vestibular, no entanto, também faltaria a estas pessoas o mínimo para acompanhar um curso superior. Entra aqui a segunda meta e a justificativa do nome Programa de Formação Interdisciplinar. Em vez de ingressar diretamente em um carreira, os estudantes recebem uma formação geral superior básica, outra ideia que o reitor gostaria de ver expandida.

Para Costa, o aluno da Unicamp se forma com excelentes bases técnicas em sua área, mas falta uma formação geral, que seria de se esperar de uma pessoa com curso superior em uma das melhores instituições latino-americanas. O problema é que futuros médicos não têm aulas de literatura, economia ou história, assim como os matemáticos nunca cursam evolução, bioética ou produção de texto e assim por diante com as restrições de cada carreira. “O nosso sonho era que pudéssemos dar uma base geral para todos os alunos e começamos por esses”, diz Costa.

Durante dois anos, eles têm aulas de linguagens, ciências humanas e artes, matemática, ciências exatas e tecnologia e ciências biológicas e da saúde. A intenção não é que consigam ser aprovados no vestibular, pois ao final todos têm vagas garantidas na graduação. Os que obtiverem as melhores notas no programa escolherão primeiro que carreira cursar.

Foto: Cinthia Rodrigues Ampliar

Interesse e empenho da turma é elogiado pelos professores

Os professores participantes estão extasiados com a turma. “Foi a coisa mais empolgante que já vi em 35 anos dando aula”, diz Alcir Pécora, que deu um curso de literatura universal para o grupo. A aula era a última da sexta-feira – que costuma ser a mais esvaziada – e um colega avisou que houve um murmúrio de lamentação quando a turma soube que o programa incluia literatura.

“Nós até pensamos em fazer algo mais fácil, mais próximo da realidade deles, mas depois concluímos o seguinte: vamos dar o que há de melhor”, lembra. Foi escolhido trabalhar o poema Canzoniere, de Francesco Petrarca. Assim mesmo, no original em italiano. “Levei três aulas de duas horas e, quando acabou, vários choravam. O acesso a uma obra deste nível tem uma força incrível”, lembra.

Knobel afirma que há relatos semelhantes de professores das diversas áreas. “Eles estão aproveitando a cultura de primeira a que finalmente têm acesso”, diz.

Alex, do início desta reportagem, conta que entre os motivos para não prestar vestibular no ano passado estava o fato de não se sentir preparado para a universidade. “Mesmo que eu tivesse chance de passar, eu sabia que faltavam conhecimentos básicos”, diz, comemorando o projeto piloto. Este mês, ele voltará à escola em que estudou para falar do programa. “Vou recomendar a todos que tentem, é uma grande oportunidade.”

Talita Nicacio, de 18 anos, pondera que há pontos negativos. Por se tratar de um programa piloto, a turma tem alguma insegurança de que tudo funcionará bem. Além disso, sentem um preconceito de outros estudantes. “A gente vê alunos daqui discriminando o nosso curso, mas no geral há mais prós do que contras. O conteúdo é muito bom e a vivência no campus vai nos dar um amadurecimento que pode nos levar a um aproveitamento muito melhor da faculdade”, diz.

O reitor aposta que sim. “Se destes 120, metade estiver entre os primeiros alunos da universidade vamos ter demonstrado que o vestibular precisa ser repensado.”

Foto: Cinthia Rodrigues

Talita, Josiane e Yasmim, de diferentes escolas públicas, elogiam conteúdo e vivência no campus

Fonte: http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/eles+nao+prestaram+vestibular+mas+entraram+na+unicamp/n1596980560046.html