sábado, 16 de abril de 2011

O VELHO DEITADO - Introdução.

Introdução.

6:15 - Uma menina desconhecida de dezesseis anos comigo, numa casa estranha. Sonho engraçado. Mais quinze minutos no despertador.

6:30 - Uma cachoeira com tobogã embaixo de uma grande pedra. Muito bonito. Mais quinze minutos no despertador.

6:45 - Uma moto fazendo curvas estranhas comigo em cima. Pilotando sem capacete. Agora tenho que levantar. A marca do meu ventilador deveria ser Hipnos.

Sempre estacionava na Rua Barata Ribeiro, descia pela Rua Figueiredo Magalhães, até o seu trabalho num edifício da Avenida Nossa Senhora de Copacabana.

Pedro é um homem de hábitos.

_ “Vai pro seu trabalho todo dia.
Sem saber se é bom ou se é ruim”, como diria Raul Seixas.

Sempre discute com seus amigos sobre o vício de fumar com uma pergunta de qualidade duvidosa para alguns:

_ Vocês acham que fumar está mais relacionado com o hábito de fumar e todos os movimentos repetitivos envolvidos ou com o vício químico do fumo?

Ele é desses, que fazem perguntas tendenciosas com dezoito palavras antes do “ou” e seis palavras depois.

Um dia, Pedro decidiu descer pela Rua Siqueira Campos para passar no banco antes do trabalho. Já estava atrasado nesse mês com o valor da pelada-churrascada semanal.

Quando ele vira a esquina da Rua Siqueira Campos com a Avenida Nossa Senhora de Copacabana gritos:

_ É UM ASSALTO!

Em meio a tantos foi o que deu para entender. E o que mais importava também.

Suficiente para que o senso de auto preservação de Pedro gritasse dentro de sua cabeça:

_ PROTEJA-SE!

Ele se projete atrás de um carro. Coração disparado. Visualiza pessoas correndo e tenta em vão entender de onde estão correndo.

Em meio a uma enorme confusão com gritos provindos de várias faixas etárias e gêneros que só eram superados por curtos sons de disparos de armas de fogo ele ainda tentava entender a situação:

_ Que diabos está acontecendo aqui?

E o caos continuava, não dando tempo dele cronogramar seus pensamentos.

Tanta informação visual, auditiva e sinestésica fazia sua cabeça querer se dividir numa metade simétrica de dentro para fora.

Ainda vendo pessoas se empurrando para dentro de lojas e para trás de carros e ônibus no trânsito parado ele busca onde se esconder, um lugar para ir.

Visão turva, o corpo excitado, punhos cerrados numa tensão total. Ainda com tudo isso ele consegue ter uma ideia, só não sabe o quanto ela presta. Mas não há tempo para muitas constatações, é preciso agir, e rápido.

_ A praça!

Com seu grande portão convidativo e charmoso parecia ser o lugar mais razoável a se adentrar e correr.

A essa hora, os macios, grossos e ondulados cabelos de Pedro já pareciam um chumaço de estopa suado de água rás. Suas pupilas dilatadas, procurando o melhor ângulo de tudo já quase cobriam toda a íris de seus olhos castanhos-mel. Sua pele oleosa agora brilhava mais do que qualquer engraxate já havia feito com seus sapatos. Sapatos esses de bicos longos, quadrados e finos, embora caíssem muito bem com seu terno barato agora só serviam para lhe tirar a agilidade e lhe provocar algumas dores.

_ Damn shoes.

Ele se pegava pensando coisas inapropriadas em momentos que pediam tensão, mas que nem sempre apresentavam. Talvez uma patologia, relacionada a falta de medo. Mas dessa vez havia tensão e medo, até demais. Com certeza essa patologia Pedro não tinha.

Desengonçado e suado Pedro segue seu caminho para dentro da praça, tentando perceber se o pior já havia passado por trás de si. Ainda estava bastante tumultuado para arriscar uma olhadela que fosse para trás.

Nesse momento, sobre a cobertura que protege as mesas da praça já não havia muitas almas dispostas a se divertir com xadrezes, damas e baralhos. Todos já iam saindo pelo outro lado da praça com alguns arranhões e muita fadiga.

Pedro continua se projetando a frente numa posição de pato atacando alguém. Tronco e cabeça inclinados para frente, braços desgovernados estendendo palmas malucas para trás, como se sua carne frágil fosse parar um projétil entre os seus dedos compridos e tortos.

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