Capítulo I.
_ Mas o que em nome de deus isso significa?
Prazer antigo de citar o nome “deus” fazendo questão de explicar que quando saísse de sua boca sempre deveria ser escrito com letra minúscula, pois não representava o Deus referenciado no mundo ocidental. Não representava nenhum deus em específico, mas sim sua conjuntura pessoal de definições gerais sobre algo que imaginava que estivesse por aí, mas que jamais a mente de homem algum pudesse definir o que é exatamente.
Tampouco entendia como o mundo todo poderia tratar algo tão abstrato de maneira tão próxima, íntima e eterna.
_ Seja lá o que isso signifique. Pedro costumava dizer.
O objeto de tamanha surpresa era bem específico, embora pouquíssimo crível.
Um velho deitado.
Pedro nem hesita, altera seu caminho de fuga trocando a posição de pato em modo de ataque por uma posição de galinha bêbada sobre o resto de uma fogueira em brasa. Do jeito que dá ele vai em direção ao velho da forma mais patética que se pode esperar de um herói no ato de salvamento.
No banco do meio, dos que ficam de costas para a Avenida e de frente para a parte coberta da praça estava ele. Deitado quase que em posição fetal, palmas das mãos coladas, e as duas sob a cabeça na altura da orelha direita, costelas direitas sendo pressionadas contra a superfície do banco por uma respiração intensa e soberana. Camisa branca, dessas que se vê em qualquer um e calça indefinível ao meio das canelas finas que denunciavam um chassi de grilo para o restante do corpo.
Mas a cara era melhor.
Sobre as mãos bastante compridas e arredondadas se formava um rosto projetado por algum desenhista bastante sacana. Contrariando o conhecimento estético que diz que 80% da afeição de uma pessoa se dá através dos pelos e cabelos aquele rosto praticamente os desprezava.
50% se dava com as sobrancelhas explicitamente arqueadas formando a ideia de um bumerangue tradicional. 25% se dava pela boca com leve sorriso de canto que contrastava escandalosamente com o cenário de caos e correria que se desenrolava. Os outros 25% se dividiam entre a barba rala, o nariz confortável, os olhos calmos e fechados e, por fim, os pelos e cabelos.
Pedro se aproxima do velho gritando onomatopeias inventadas quase primitivamente:
_ Ow!
_ Ei!
Não funcionou.
Agora mais assustado por estar olhando diretamente a movimentação que continuava ininteligível na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, Pedro se aproxima do velho já com a mão direita se posicionando para fazer algo que talvez fosse se traduzir numa sacudida no ombro esquerdo do velho.
Ele fez. Quase que se arrependendo no meio do caminho.
Funcionou.
O velho abre vagarosamente os olhos que antes de terminarem a dobra das pálpebras antigas são cuspidos por salivas e gritos que vinham de um homem desconexo por si numa posição ainda esquisita, agora mais próxima do chão.
_ O que o senhor está fazendo aqui?
_ Porque não correu?
_ O que há de errado com o senhor?
_ O senhor é maluco para ainda estar aqui?
_ Não vê o que está acontecendo?
Depois da chuva de perguntas o velho se senta e dá a maior despreguiçada já vista por Pedro. Braços esticados, pernas alongadas, pescoço em curvas alternativas. Isso tudo deixa Pedro atônito e atônico.
Desesperado por ouvir algo da boca do velho antes de correr com a consciência tranquila ele acaba por ouvir algo e desistir de ter desejado, se lembrando da frase de Scott Flanagan: “Tome cuidado com o que você deseja. Você pode acabar por conseguir”.
Através de um som levemente rouco e bastante velho o cérebro de Pedro processa:
_ O que você está fazendo aqui?
Sem saber se deveria correr, olhar a movimentação de um assalto que já parecia estar começando a virar história ou se concentrar na figura esquisita que havia encontrado ali, Pedro percebe se projetar em sua mente uma indagação:
_ Wtf?
Mas o que sai de sua boca quase que inconscientemente é uma tentativa de explicação já pouco impetuosa:
_ Eu,... Eu estou tentando tirar o senhor daqui, te ajudar.
_ Mentira.
Foi a resposta menos rouca depois de uma limpeza nas cordas vocais dada pelo velho.
_ Você está aqui para se ajudar. Para ser o herói de um velho jogado na praça em meio a uma confusão.
Continuou o velho mansa, mas ritmicamente.
Agora ouve o que tenho para lhe dizer antes de seguir seu caminho:
_ Não me incomodo com suas mentiras, nunca me incomodarei, mas me incomodo muito com as mentiras que eu conto para mim. Com as ilusões que ponho diante dos meus sentidos a cada dia.
E mais:
_ Se você tiver interesse em deixar de ser um pequeno besouro iludido pense sobre isso, e procure o que há atrás das cortinas das ilusões que encobrem todo o seu comportamento e processos mentais.
_ E da próxima, pense em não ofender um objeto desconhecido, ou você poderá estar atirando pedras na cabeça de um jacaré achando que é um tronco de árvore.
_ Ilusões.
_ Agora vá e siga seu caminho pequeno besouro iludido.
Depois que o velho soltou sua última palavra e se curvou parecendo estar voltando a sua posição de cochilo confortável, Pedro ameaça um sorriso encharcado de sarcasmo e dá as costas para o velho e para a Avenida que já tem o seu caos amenizado com sons mais distantes e algumas cabeças reaparecendo desconfiadas por detrás dos mais variados objetos transformados em esconderijos.
Pedro ainda em alerta segue para o setor oposto da praça em direção a saída, agora mais desajeitado e desconfortável do que antes, já escolhendo o velho quando olhava para trás, em detrimento da movimentação do assalto em si.
O pequeno besouro iludido vai embora, tentando não ri de si mesmo e entender sobre o que se tratou tudo aquilo. Andando em respeito ao sentido inicial, progride em direção a praia de Copacabana, já sei tanta certeza de para onde estava indo antes de tudo acontecer.
_ Velho estúpido.
Andava e tentava se manter senhor sobre si e da situação.
_ Tomara que tenha tomado um tiro bem no meio daquela orelha grande e torta.
Continuava na tentativa de crescer na diminuição daquele que havia sido seu algoz severos minutos atrás.
Pedro desce a Rua Siqueira Campos, se sente atraído pelo mar como há muito não se percebia, atravessa a Avenida Atlântica, sofrendo um pouco com a demora dos sinais, e rompe até o mundialmente famoso, e de fato belíssimo, Calçadão de Copacabana.
Tentando definir o que estava fazendo, sentindo falta de não estar fazendo algo mais importante, Pedro tenta se convencer que só está dando uma volta para relaxar e faz questão de se permitir uma caminhada. Ao seu ouvido interno, soa como se fosse uma insubordinação ao script diário sempre passível de uma avaliação nota 10 no quesito repetição e competência.
Mas era só uma caminhada despretensiosa, o sentido escolhido foi o do Leme. O sol batia forte na areia amarela e as mangueiras furadas pareciam eficientes na criação de um caminho molhado que levava do
Calçadão até o mar. Mas isso era uma transgressão muito grande para Pedro, que abomina o pensamento de ver o mar mais de perto aquele dia, ficando com os sons das ondas reverberando em suas orelhas numa competição injusta com o som impetuoso do tráfego a sua esquerda.
Conforme andava, pensava e olhava, Pedro tentava captar o que já estava virando assunto numa mesa ou outra dos quiosques.
_ Assalto.
_ Bolsa.
_ Morte.
_ Mulher.
_ Fuga.
_ Rabecão.
Pedro já não queria ouvir mais nada, filtrando os sons com os ouvidos treinados pela música que fazia na época de banda de rock tempo atrás, ele escolhe os sons das ondas, e tenta sobrepujar os outros. Longe demais para isso, o tráfego ainda vence.
Mas tendo os sons como primeiro plano em sua mente, Pedro percebe um segundo plano se formando disfarçadamente. Na idade que tinha, já havia percebido que era dessa forma que sua mente processava mais inspirada seus pensamentos.
Era como uma armadilha, que desengatilhava pensamentos interessantes em segundo plano. Pedro só tinha dúvidas se um dia conseguiria trazer esses pensamentos para o primeiro plano e também duvidava se a mente das outras pessoas funcionava da maneira que a dele exigia. Ainda não havia definido como isso poderia ser perguntado a alguém. Mas agora a vontade de cumprir essa tarefa havia crescido.
Nesse papel de parede começam a aparecer algumas perguntas.
_ O que aconteceu hoje?
_ Quem diabos era aquele velho estúpido?
_ Louco ou coerente?
E a mais difícil de todas:
_ Será que eu sou um pequeno besouro iludido?
Pedro já estava ao final da batente do caminho que faceia o Morro do Leme e que permite uma visão invertida de Copacabana, inclusive com o Cristo Redentor aparecendo ao fundo.
_ Queria estar num barco agora, no meio dessa angra, vendo tudo isso bem de frente. Deve ser lindo. Um dia. Tomara.
Era hora de deixar os sonhos para trás, enterrar algumas dúvidas e voltar. O caminho era longo, e o sol fritava um corpo dentro do terno, mesmo já sem o paletó, que foi tudo que Pedro se permitiu tirar, toda a mudança que ele foi capaz de fazer.
Celular toca, de fato era hora de voltar para a civilização.
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