terça-feira, 31 de maio de 2011

Primeira escola verde do Brasil já “dá frutos” no Rio

Beneficiados pela iniciativa, alunos da rede pública afirmam que estão "num padrão acima" das escolas particulares

Flávia Salme, iG Rio de Janeiro | 30/05/2011 07:57

É na zona oeste da cidade do Rio que foi instalada a primeira escola verde do país. Resultado de uma parceria público-privada, está localizada no bairro de Santa Cruz, que possui um dos IDHs mais baixo da capital: 0,742. Quanto mais perto de 1, mais desenvolvida é a região - na Gávea, bairro nobre da zona sul carioca, o índice é 0,970.

Novidade que chama a atenção dos moradores, o Colégio Estadual Erich Walter Heine conta com painéis solares, reaproveitamento da água da chuva, iluminação natural e, claro, área para reciclagem. Embora aberta há apenas três meses, a escola já dá frutos: tem gente levando para casa o que aprendeu na sala de aula. “Meu pai montou um sistema de captação da água da chuva lá em casa”, conta o estudante Hebert Elias Sanches, de 17 anos. “Usamos para lavar a roupa, limpar o quintal e sanitários. A conta d’água está mais barata”, afirma.

Foto: Léo Ramos

Plantas foram integradas à estrutura física no chamado "telhado verde";

ajuda a reter água para reuso, favorece o clima e neutraliza emissões de carbono


Na escola, além de lições de sustentabilidade, o ensino é profissionalizante. Alunos de 14 a 17 anos recebem aulas técnicas de administração. Em meio a ensinamentos de logística e afins, também chama atenção dos estudantes o “telhado verde”, que pode ser visitado pela comunidade escolar. E, no futuro, também por moradores, já que a direção faz planos de abrir as portas do colégio nos finais de semana. Funciona assim: plantas espalhadas pela cobertura ajudam a reter a água da chuva, reduzir o calor e, de quebra, neutralizar as emissões de carbono.

Foto: Léo Ramos Ampliar

Arquitetura também priorizou a acessibilidade: na escola não há escadas, somente rampas de acesso; informações em braile também fazem parte da rotina

Painéis solares aquecem a água do vestiário, mas a economia de energia também é garantida por lâmpadas LED e sensores de presença que desligam automaticamente luzes e aparelhos de ar-condicionado na ausência de pessoas no local.

O gerente de projetos da Secretaria Estadual de Educação, Sérgio Menezes, afirma que existem apenas 120 escolas como essa no mundo, sendo 118 delas nos Estados Unidos.

Na escola carioca, a água da chuva é captada e armazenada para depois ser usada nos sanitários, jardins e na lavagem dos pisos.

“A redução de água potável chega a 50%”, diz William Nogueira, gerente de relações institucionais da siderúrgica ThyssenKrupp CSA, que patrocinou a iniciativa, com R$ 11 milhões. “Todas as madeiras utilizadas na construção são certificadas. Além disso, os vidros das janelas filtram os raios solares, o que proporciona conforto térmico e economia de energia. É preciso ressaltar que o conceito da acessibilidade está por toda a escola, para facilitar a rotina dos portadores de necessidades especiais”, destaca Nogueira.

Foto: Léo Ramos Ampliar

A estudante Natália diz que agora ações voltadas para a sustentabilidade entraram em prática em sua vida

Por e-mail, a arquiteta responsável pelo projeto, Maria José Gerolimich, da Arktos Arquitetura Sustentável, explica que a escola foi construída em forma de catavento, de maneira que o ar circule por todo o espaço.

O teto, que favorece a iluminação natural, conta com áreas abertas que fazem com que o ar quente suba e se dissipe como em uma chaminé.

“Muitos desses conceitos eu conhecia apenas na teoria. Agora, virou prática mesmo. E estou adorando, porque dá para ver os resultados”, comemora a estudante Natália Duarte da Silva Serra, de 14 anos.

Projeto pedagógico

Os 200 alunos matriculados no Colégio Estadual Erich Walter estudam em horário integral: das 7h às 17h dividem as aulas convencionais de Matemática, Ciências e Português com o curso técnico.

Para tornar a rotina dos alunos mais interessante, as disciplinas foram integradas umas às outras. “Por exemplo, as aulas de matemática conversam com outras disciplinas, como estatística, por exemplo. Esses professores interagem e podem até aplicar provas em conjunto”, diz Sérgio Menezes, gerente de projetos da Secretaria de Educação. “Os alunos também cultivam uma horta orgânica na escola, e o que for colhido irá direto para a cantina onde eles almoçam. Enquanto o professor de biologia explica as características de alguns alimentos, o de química fala sobre o solo. É tudo integrado”, acrescenta.

Foto: Léo Ramos

Alunos no pátio da escola: ventilação, luz natural e madeiras certificadas

Entrar para o Erich Heine não foi fácil. De acordo com a secretaria de Educação 1.837 alunos disputaram as 200 vagas disponíveis. Professores passaram por um rigoroso processo de seleção: foram 741 inscritos para 21 vagas. A direção também foi selecionada por concurso.

Além disso, os docentes foram submetidos a um treinamento, já que ThyssenKrupp CSA, co-gestora do projeto, contratou uma consultoria pedagógica para desenvolver conteúdo próprio para a escola.

Como trabalham em regime de dedicação exclusiva, os professores da escola ganham um pouco mais que os demais que integram a rede estadual. “Eles contam com um acréscimo de cerca de R$ 800, por meio de gratificação garantida pela ThyssenKrupp CSA", esclarece Menezes.

O gerente de projetos da Secretaria de Educação do Rio diz que a siderúrgica, cuja sede fica no bairro de Santa Cruz, atendeu a sugestão do Estado de construir a escola porque há na região carência da mão de obra qualificada. “Não temos dúvidas de que os alunos da escola sairão todos empregados ou em estágios. A demanda é grande”, assegura Nogueira.

Nas aulas de administração, os alunos recebem noções de logística, marketing, aprendem a redigir um contrato social e recebem aulas de informática. “Todos vão ganhar, em breve, notebooks que serão doados pela empresa”, diz Nogueira.

"Acima das particulares"

Pelos corredores, a empolgação é grande. “Tenho certeza de que estou em um nível bem acima que o de muitos alunos matriculados em boas escolas particulares”, diz o aluno Hebert Elias. “A proposta é muito legal, nem vejo o dia passar. E olha que fico aqui o dia inteiro”, reforça a estudante Raysa dos Santos, de 16 anos.

Foto: Léo Ramos

Alunos no laboratório de informática: monitores de LCD que reduzem o

consumo de energia em 5%


O Colégio Estadual Erich Walter Heine é terceira escola técnica conceitual inaugurada pelo governo do Rio. A primeira foi a Nave (Núcleo Avançado em Educação), em parceria com o instituto Oi Futuro, voltada para o ensino tecnológico. A segunda foi a Nata (Núcleo Avançado em Tecnologia de Alimentos), em ação conjunta com a Secretaria Estadual de Agricultura e o grupo Pão de Açúcar. O governo do Estado estabeleceu a meta de construir 11 escolas técnicas e conceituais até 2014.

De acordo com o gerente de projetos da Secretaria de Educação, o governo do Estado acaba de autorizar a implantação de uma nova escola técnica em Paraíba do Sul, no Centro Fluminense, em parceria com o grupo Lemgruber. "Será mais um centro do Ensino Médio Integrado de Parceria Público-Privada (EMIPP), voltado para formação de mão de obra técnica em Química, já que é grande a carência desse profisisonal na região", antecipa Sérgio Menezes.

O telhado verde em detalhes: virou atração entre os alunos
Foto: Léo Ramos

O telhado verde em detalhes: virou atração entre os alunos

Fonte: http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/primeira+escola+verde+do+brasil+ja+da+frutos+no+rio/n1596983937508.html#4

sábado, 28 de maio de 2011

Eles não prestaram vestibular, mas entraram na Unicamp

Alex Tomás de Aquino, de 17 anos, não se inscreveu no vestibular para a Universidade de Campinas (Unicamp) no ano passado. Apesar de se destacar entre os alunos do 3º ano do ensino médio da escola estadual Álvaro Cotomacci, na mesma cidade, ele imaginava que não teria chance de conseguir uma vaga na instituição de nível superior que mais admira, concorrendo com estudantes de cursinhos e das melhores escolas do País.

Foto: Cinthia Rodrigues

Alex e restante da turma em seu 1º ano na Unicamp, mesmo sem prestar vestibular

A história é muito parecida com a de Talita Nicacio, Josiane dos Santos, Yasmin Almeida, Anderson Pimentel e da maioria dos alunos da primeira turma do Programa de Formação Interdisciplinar (Profis) da Unicamp, que começou este ano. Todos foram selecionados por ter o melhor desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em comparação aos colegas que cursaram a mesma escola – e não a candidatos em geral.

O formato gerou críticas por ser um programa de inclusão que restringia o público à cidade de Campinas. No ano passado, a Justiça vetou uma iniciativa da Universidade Federal do Rio de Janeiro que tentava destinar 20% das vagas apenas a estudantes de escolas públicas fluminenses.

Na Unicamp, no entanto, o reitor Fernando Costa diz que o principal objetivo não é ajudar os alunos das escolas públicas a entrar na universidade, mas o contrário: garantir que a academia não perca os maiores talentos por eles não estudarem em boas escolas. No projeto piloto em andamento, com apenas 120 vagas, a abrangência territorial teria de ser pequena para que não voltasse a haver uma seleção entre escolas, em vez de alunos. “Se eles tiveram o melhor desempenho possível naquelas condições, muito possivelmente serão ótimos estudantes de nível superior também.”

Crítico do vestibular como única forma de admissão, ele espera que o Profis dê pistas de como a Unicamp e outras instituições brasileiras possam incluir seleções mais criativas e inteligentes. “A verdade é que se um estudante fizer cursinho ano após ano, uma hora ele passa, mas muitas pessoas com potencial podem ser desperdiçadas por não terem feito uma escola que proporcionasse o mínimo”, explica.

Se eles tiveram o melhor desempenho possível naquelas condições, muito possivelmente serão ótimos estudantes de nível superior também”

O projeto não deixa de ser de inclusão. Dados preliminares da equipe de acompanhamento do Profis mostram que o porcentual de negros inscritos na instituição pelo programa é cinco vezes maior do que a média pelo vestibular. O mesmo ocorre com a renda familiar. Enquanto entre os 3 mil alunos que ingressam na universidade pelo vestibular apenas 9% tem renda familiar entre 1 e 3 salários mínimos, essa é a faixa de rendimento em que estão 47% dos ingressantes pelo novo programa.

“O perfil da turma tem a mesma diversidade do jovem desta idade no Estado de São Paulo”, diz o pró-reitor de Graduação, Marcelo Knobel.

Curso superior básico

Se não teriam conhecimentos básicos para passar no vestibular, no entanto, também faltaria a estas pessoas o mínimo para acompanhar um curso superior. Entra aqui a segunda meta e a justificativa do nome Programa de Formação Interdisciplinar. Em vez de ingressar diretamente em um carreira, os estudantes recebem uma formação geral superior básica, outra ideia que o reitor gostaria de ver expandida.

Para Costa, o aluno da Unicamp se forma com excelentes bases técnicas em sua área, mas falta uma formação geral, que seria de se esperar de uma pessoa com curso superior em uma das melhores instituições latino-americanas. O problema é que futuros médicos não têm aulas de literatura, economia ou história, assim como os matemáticos nunca cursam evolução, bioética ou produção de texto e assim por diante com as restrições de cada carreira. “O nosso sonho era que pudéssemos dar uma base geral para todos os alunos e começamos por esses”, diz Costa.

Durante dois anos, eles têm aulas de linguagens, ciências humanas e artes, matemática, ciências exatas e tecnologia e ciências biológicas e da saúde. A intenção não é que consigam ser aprovados no vestibular, pois ao final todos têm vagas garantidas na graduação. Os que obtiverem as melhores notas no programa escolherão primeiro que carreira cursar.

Foto: Cinthia Rodrigues Ampliar

Interesse e empenho da turma é elogiado pelos professores

Os professores participantes estão extasiados com a turma. “Foi a coisa mais empolgante que já vi em 35 anos dando aula”, diz Alcir Pécora, que deu um curso de literatura universal para o grupo. A aula era a última da sexta-feira – que costuma ser a mais esvaziada – e um colega avisou que houve um murmúrio de lamentação quando a turma soube que o programa incluia literatura.

“Nós até pensamos em fazer algo mais fácil, mais próximo da realidade deles, mas depois concluímos o seguinte: vamos dar o que há de melhor”, lembra. Foi escolhido trabalhar o poema Canzoniere, de Francesco Petrarca. Assim mesmo, no original em italiano. “Levei três aulas de duas horas e, quando acabou, vários choravam. O acesso a uma obra deste nível tem uma força incrível”, lembra.

Knobel afirma que há relatos semelhantes de professores das diversas áreas. “Eles estão aproveitando a cultura de primeira a que finalmente têm acesso”, diz.

Alex, do início desta reportagem, conta que entre os motivos para não prestar vestibular no ano passado estava o fato de não se sentir preparado para a universidade. “Mesmo que eu tivesse chance de passar, eu sabia que faltavam conhecimentos básicos”, diz, comemorando o projeto piloto. Este mês, ele voltará à escola em que estudou para falar do programa. “Vou recomendar a todos que tentem, é uma grande oportunidade.”

Talita Nicacio, de 18 anos, pondera que há pontos negativos. Por se tratar de um programa piloto, a turma tem alguma insegurança de que tudo funcionará bem. Além disso, sentem um preconceito de outros estudantes. “A gente vê alunos daqui discriminando o nosso curso, mas no geral há mais prós do que contras. O conteúdo é muito bom e a vivência no campus vai nos dar um amadurecimento que pode nos levar a um aproveitamento muito melhor da faculdade”, diz.

O reitor aposta que sim. “Se destes 120, metade estiver entre os primeiros alunos da universidade vamos ter demonstrado que o vestibular precisa ser repensado.”

Foto: Cinthia Rodrigues

Talita, Josiane e Yasmim, de diferentes escolas públicas, elogiam conteúdo e vivência no campus

Fonte: http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/eles+nao+prestaram+vestibular+mas+entraram+na+unicamp/n1596980560046.html

sábado, 16 de abril de 2011

Ordem básica de leitura de O VELHO DEITADO

Leia a Definição aqui.

Leia a Introdução aqui.

Leia o Capítulo I aqui.

Ou se tiver a manha ache a Definição lá embaixo e vá lendo os posts de baixo para cima. :|


O VELHO DEITADO - Capítulo I.

Capítulo I.

_ Mas o que em nome de deus isso significa?

Prazer antigo de citar o nome “deus” fazendo questão de explicar que quando saísse de sua boca sempre deveria ser escrito com letra minúscula, pois não representava o Deus referenciado no mundo ocidental. Não representava nenhum deus em específico, mas sim sua conjuntura pessoal de definições gerais sobre algo que imaginava que estivesse por aí, mas que jamais a mente de homem algum pudesse definir o que é exatamente.

Tampouco entendia como o mundo todo poderia tratar algo tão abstrato de maneira tão próxima, íntima e eterna.

_ Seja lá o que isso signifique. Pedro costumava dizer.

O objeto de tamanha surpresa era bem específico, embora pouquíssimo crível.

Um velho deitado.

Pedro nem hesita, altera seu caminho de fuga trocando a posição de pato em modo de ataque por uma posição de galinha bêbada sobre o resto de uma fogueira em brasa. Do jeito que dá ele vai em direção ao velho da forma mais patética que se pode esperar de um herói no ato de salvamento.

No banco do meio, dos que ficam de costas para a Avenida e de frente para a parte coberta da praça estava ele. Deitado quase que em posição fetal, palmas das mãos coladas, e as duas sob a cabeça na altura da orelha direita, costelas direitas sendo pressionadas contra a superfície do banco por uma respiração intensa e soberana. Camisa branca, dessas que se vê em qualquer um e calça indefinível ao meio das canelas finas que denunciavam um chassi de grilo para o restante do corpo.

Mas a cara era melhor.

Sobre as mãos bastante compridas e arredondadas se formava um rosto projetado por algum desenhista bastante sacana. Contrariando o conhecimento estético que diz que 80% da afeição de uma pessoa se dá através dos pelos e cabelos aquele rosto praticamente os desprezava.

50% se dava com as sobrancelhas explicitamente arqueadas formando a ideia de um bumerangue tradicional. 25% se dava pela boca com leve sorriso de canto que contrastava escandalosamente com o cenário de caos e correria que se desenrolava. Os outros 25% se dividiam entre a barba rala, o nariz confortável, os olhos calmos e fechados e, por fim, os pelos e cabelos.

Pedro se aproxima do velho gritando onomatopeias inventadas quase primitivamente:

_ Ow!

_ Ei!

Não funcionou.

Agora mais assustado por estar olhando diretamente a movimentação que continuava ininteligível na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, Pedro se aproxima do velho já com a mão direita se posicionando para fazer algo que talvez fosse se traduzir numa sacudida no ombro esquerdo do velho.

Ele fez. Quase que se arrependendo no meio do caminho.

Funcionou.

O velho abre vagarosamente os olhos que antes de terminarem a dobra das pálpebras antigas são cuspidos por salivas e gritos que vinham de um homem desconexo por si numa posição ainda esquisita, agora mais próxima do chão.

_ O que o senhor está fazendo aqui?

_ Porque não correu?

_ O que há de errado com o senhor?

_ O senhor é maluco para ainda estar aqui?

_ Não vê o que está acontecendo?

Depois da chuva de perguntas o velho se senta e dá a maior despreguiçada já vista por Pedro. Braços esticados, pernas alongadas, pescoço em curvas alternativas. Isso tudo deixa Pedro atônito e atônico.

Desesperado por ouvir algo da boca do velho antes de correr com a consciência tranquila ele acaba por ouvir algo e desistir de ter desejado, se lembrando da frase de Scott Flanagan: “Tome cuidado com o que você deseja. Você pode acabar por conseguir”.

Através de um som levemente rouco e bastante velho o cérebro de Pedro processa:

_ O que você está fazendo aqui?

Sem saber se deveria correr, olhar a movimentação de um assalto que já parecia estar começando a virar história ou se concentrar na figura esquisita que havia encontrado ali, Pedro percebe se projetar em sua mente uma indagação:

_ Wtf?

Mas o que sai de sua boca quase que inconscientemente é uma tentativa de explicação já pouco impetuosa:

_ Eu,... Eu estou tentando tirar o senhor daqui, te ajudar.

_ Mentira.

Foi a resposta menos rouca depois de uma limpeza nas cordas vocais dada pelo velho.

_ Você está aqui para se ajudar. Para ser o herói de um velho jogado na praça em meio a uma confusão.

Continuou o velho mansa, mas ritmicamente.

Agora ouve o que tenho para lhe dizer antes de seguir seu caminho:

_ Não me incomodo com suas mentiras, nunca me incomodarei, mas me incomodo muito com as mentiras que eu conto para mim. Com as ilusões que ponho diante dos meus sentidos a cada dia.

E mais:

_ Se você tiver interesse em deixar de ser um pequeno besouro iludido pense sobre isso, e procure o que há atrás das cortinas das ilusões que encobrem todo o seu comportamento e processos mentais.

_ E da próxima, pense em não ofender um objeto desconhecido, ou você poderá estar atirando pedras na cabeça de um jacaré achando que é um tronco de árvore.

_ Ilusões.

_ Agora vá e siga seu caminho pequeno besouro iludido.

Depois que o velho soltou sua última palavra e se curvou parecendo estar voltando a sua posição de cochilo confortável, Pedro ameaça um sorriso encharcado de sarcasmo e dá as costas para o velho e para a Avenida que já tem o seu caos amenizado com sons mais distantes e algumas cabeças reaparecendo desconfiadas por detrás dos mais variados objetos transformados em esconderijos.

Pedro ainda em alerta segue para o setor oposto da praça em direção a saída, agora mais desajeitado e desconfortável do que antes, já escolhendo o velho quando olhava para trás, em detrimento da movimentação do assalto em si.

O pequeno besouro iludido vai embora, tentando não ri de si mesmo e entender sobre o que se tratou tudo aquilo. Andando em respeito ao sentido inicial, progride em direção a praia de Copacabana, já sei tanta certeza de para onde estava indo antes de tudo acontecer.

_ Velho estúpido.

Andava e tentava se manter senhor sobre si e da situação.

_ Tomara que tenha tomado um tiro bem no meio daquela orelha grande e torta.

Continuava na tentativa de crescer na diminuição daquele que havia sido seu algoz severos minutos atrás.

Pedro desce a Rua Siqueira Campos, se sente atraído pelo mar como há muito não se percebia, atravessa a Avenida Atlântica, sofrendo um pouco com a demora dos sinais, e rompe até o mundialmente famoso, e de fato belíssimo, Calçadão de Copacabana.

Tentando definir o que estava fazendo, sentindo falta de não estar fazendo algo mais importante, Pedro tenta se convencer que só está dando uma volta para relaxar e faz questão de se permitir uma caminhada. Ao seu ouvido interno, soa como se fosse uma insubordinação ao script diário sempre passível de uma avaliação nota 10 no quesito repetição e competência.

Mas era só uma caminhada despretensiosa, o sentido escolhido foi o do Leme. O sol batia forte na areia amarela e as mangueiras furadas pareciam eficientes na criação de um caminho molhado que levava do
Calçadão até o mar. Mas isso era uma transgressão muito grande para Pedro, que abomina o pensamento de ver o mar mais de perto aquele dia, ficando com os sons das ondas reverberando em suas orelhas numa competição injusta com o som impetuoso do tráfego a sua esquerda.

Conforme andava, pensava e olhava, Pedro tentava captar o que já estava virando assunto numa mesa ou outra dos quiosques.

_ Assalto.

_ Bolsa.

_ Morte.

_ Mulher.

_ Fuga.

_ Rabecão.

Pedro já não queria ouvir mais nada, filtrando os sons com os ouvidos treinados pela música que fazia na época de banda de rock tempo atrás, ele escolhe os sons das ondas, e tenta sobrepujar os outros. Longe demais para isso, o tráfego ainda vence.

Mas tendo os sons como primeiro plano em sua mente, Pedro percebe um segundo plano se formando disfarçadamente. Na idade que tinha, já havia percebido que era dessa forma que sua mente processava mais inspirada seus pensamentos.

Era como uma armadilha, que desengatilhava pensamentos interessantes em segundo plano. Pedro só tinha dúvidas se um dia conseguiria trazer esses pensamentos para o primeiro plano e também duvidava se a mente das outras pessoas funcionava da maneira que a dele exigia. Ainda não havia definido como isso poderia ser perguntado a alguém. Mas agora a vontade de cumprir essa tarefa havia crescido.

Nesse papel de parede começam a aparecer algumas perguntas.

_ O que aconteceu hoje?

_ Quem diabos era aquele velho estúpido?

_ Louco ou coerente?

E a mais difícil de todas:

_ Será que eu sou um pequeno besouro iludido?

Pedro já estava ao final da batente do caminho que faceia o Morro do Leme e que permite uma visão invertida de Copacabana, inclusive com o Cristo Redentor aparecendo ao fundo.

_ Queria estar num barco agora, no meio dessa angra, vendo tudo isso bem de frente. Deve ser lindo. Um dia. Tomara.

Era hora de deixar os sonhos para trás, enterrar algumas dúvidas e voltar. O caminho era longo, e o sol fritava um corpo dentro do terno, mesmo já sem o paletó, que foi tudo que Pedro se permitiu tirar, toda a mudança que ele foi capaz de fazer.

Celular toca, de fato era hora de voltar para a civilização.

O VELHO DEITADO - Introdução.

Introdução.

6:15 - Uma menina desconhecida de dezesseis anos comigo, numa casa estranha. Sonho engraçado. Mais quinze minutos no despertador.

6:30 - Uma cachoeira com tobogã embaixo de uma grande pedra. Muito bonito. Mais quinze minutos no despertador.

6:45 - Uma moto fazendo curvas estranhas comigo em cima. Pilotando sem capacete. Agora tenho que levantar. A marca do meu ventilador deveria ser Hipnos.

Sempre estacionava na Rua Barata Ribeiro, descia pela Rua Figueiredo Magalhães, até o seu trabalho num edifício da Avenida Nossa Senhora de Copacabana.

Pedro é um homem de hábitos.

_ “Vai pro seu trabalho todo dia.
Sem saber se é bom ou se é ruim”, como diria Raul Seixas.

Sempre discute com seus amigos sobre o vício de fumar com uma pergunta de qualidade duvidosa para alguns:

_ Vocês acham que fumar está mais relacionado com o hábito de fumar e todos os movimentos repetitivos envolvidos ou com o vício químico do fumo?

Ele é desses, que fazem perguntas tendenciosas com dezoito palavras antes do “ou” e seis palavras depois.

Um dia, Pedro decidiu descer pela Rua Siqueira Campos para passar no banco antes do trabalho. Já estava atrasado nesse mês com o valor da pelada-churrascada semanal.

Quando ele vira a esquina da Rua Siqueira Campos com a Avenida Nossa Senhora de Copacabana gritos:

_ É UM ASSALTO!

Em meio a tantos foi o que deu para entender. E o que mais importava também.

Suficiente para que o senso de auto preservação de Pedro gritasse dentro de sua cabeça:

_ PROTEJA-SE!

Ele se projete atrás de um carro. Coração disparado. Visualiza pessoas correndo e tenta em vão entender de onde estão correndo.

Em meio a uma enorme confusão com gritos provindos de várias faixas etárias e gêneros que só eram superados por curtos sons de disparos de armas de fogo ele ainda tentava entender a situação:

_ Que diabos está acontecendo aqui?

E o caos continuava, não dando tempo dele cronogramar seus pensamentos.

Tanta informação visual, auditiva e sinestésica fazia sua cabeça querer se dividir numa metade simétrica de dentro para fora.

Ainda vendo pessoas se empurrando para dentro de lojas e para trás de carros e ônibus no trânsito parado ele busca onde se esconder, um lugar para ir.

Visão turva, o corpo excitado, punhos cerrados numa tensão total. Ainda com tudo isso ele consegue ter uma ideia, só não sabe o quanto ela presta. Mas não há tempo para muitas constatações, é preciso agir, e rápido.

_ A praça!

Com seu grande portão convidativo e charmoso parecia ser o lugar mais razoável a se adentrar e correr.

A essa hora, os macios, grossos e ondulados cabelos de Pedro já pareciam um chumaço de estopa suado de água rás. Suas pupilas dilatadas, procurando o melhor ângulo de tudo já quase cobriam toda a íris de seus olhos castanhos-mel. Sua pele oleosa agora brilhava mais do que qualquer engraxate já havia feito com seus sapatos. Sapatos esses de bicos longos, quadrados e finos, embora caíssem muito bem com seu terno barato agora só serviam para lhe tirar a agilidade e lhe provocar algumas dores.

_ Damn shoes.

Ele se pegava pensando coisas inapropriadas em momentos que pediam tensão, mas que nem sempre apresentavam. Talvez uma patologia, relacionada a falta de medo. Mas dessa vez havia tensão e medo, até demais. Com certeza essa patologia Pedro não tinha.

Desengonçado e suado Pedro segue seu caminho para dentro da praça, tentando perceber se o pior já havia passado por trás de si. Ainda estava bastante tumultuado para arriscar uma olhadela que fosse para trás.

Nesse momento, sobre a cobertura que protege as mesas da praça já não havia muitas almas dispostas a se divertir com xadrezes, damas e baralhos. Todos já iam saindo pelo outro lado da praça com alguns arranhões e muita fadiga.

Pedro continua se projetando a frente numa posição de pato atacando alguém. Tronco e cabeça inclinados para frente, braços desgovernados estendendo palmas malucas para trás, como se sua carne frágil fosse parar um projétil entre os seus dedos compridos e tortos.