Leia a Definição aqui.
Leia a Introdução aqui.
Leia o Capítulo I aqui.
Ou se tiver a manha ache a Definição lá embaixo e vá lendo os posts de baixo para cima. :|
O Percepção da Peripécia é um blog que tem como objetivo ser um espaço para integrantes do Grupo Peripécia postarem sobre diferentes objetos as suas percepções do mesmo. O resultado será a percepção do indivíduo se multiplicando pelo número de integrantes do grupo. :D
Capítulo I.
_ Mas o que em nome de deus isso significa?
Prazer antigo de citar o nome “deus” fazendo questão de explicar que quando saísse de sua boca sempre deveria ser escrito com letra minúscula, pois não representava o Deus referenciado no mundo ocidental. Não representava nenhum deus em específico, mas sim sua conjuntura pessoal de definições gerais sobre algo que imaginava que estivesse por aí, mas que jamais a mente de homem algum pudesse definir o que é exatamente.
Tampouco entendia como o mundo todo poderia tratar algo tão abstrato de maneira tão próxima, íntima e eterna.
_ Seja lá o que isso signifique. Pedro costumava dizer.
O objeto de tamanha surpresa era bem específico, embora pouquíssimo crível.
Um velho deitado.
Pedro nem hesita, altera seu caminho de fuga trocando a posição de pato em modo de ataque por uma posição de galinha bêbada sobre o resto de uma fogueira em brasa. Do jeito que dá ele vai em direção ao velho da forma mais patética que se pode esperar de um herói no ato de salvamento.
No banco do meio, dos que ficam de costas para a Avenida e de frente para a parte coberta da praça estava ele. Deitado quase que em posição fetal, palmas das mãos coladas, e as duas sob a cabeça na altura da orelha direita, costelas direitas sendo pressionadas contra a superfície do banco por uma respiração intensa e soberana. Camisa branca, dessas que se vê em qualquer um e calça indefinível ao meio das canelas finas que denunciavam um chassi de grilo para o restante do corpo.
Mas a cara era melhor.
Sobre as mãos bastante compridas e arredondadas se formava um rosto projetado por algum desenhista bastante sacana. Contrariando o conhecimento estético que diz que 80% da afeição de uma pessoa se dá através dos pelos e cabelos aquele rosto praticamente os desprezava.
50% se dava com as sobrancelhas explicitamente arqueadas formando a ideia de um bumerangue tradicional. 25% se dava pela boca com leve sorriso de canto que contrastava escandalosamente com o cenário de caos e correria que se desenrolava. Os outros 25% se dividiam entre a barba rala, o nariz confortável, os olhos calmos e fechados e, por fim, os pelos e cabelos.
Pedro se aproxima do velho gritando onomatopeias inventadas quase primitivamente:
_ Ow!
_ Ei!
Não funcionou.
Agora mais assustado por estar olhando diretamente a movimentação que continuava ininteligível na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, Pedro se aproxima do velho já com a mão direita se posicionando para fazer algo que talvez fosse se traduzir numa sacudida no ombro esquerdo do velho.
Ele fez. Quase que se arrependendo no meio do caminho.
Funcionou.
O velho abre vagarosamente os olhos que antes de terminarem a dobra das pálpebras antigas são cuspidos por salivas e gritos que vinham de um homem desconexo por si numa posição ainda esquisita, agora mais próxima do chão.
_ O que o senhor está fazendo aqui?
_ Porque não correu?
_ O que há de errado com o senhor?
_ O senhor é maluco para ainda estar aqui?
_ Não vê o que está acontecendo?
Depois da chuva de perguntas o velho se senta e dá a maior despreguiçada já vista por Pedro. Braços esticados, pernas alongadas, pescoço em curvas alternativas. Isso tudo deixa Pedro atônito e atônico.
Desesperado por ouvir algo da boca do velho antes de correr com a consciência tranquila ele acaba por ouvir algo e desistir de ter desejado, se lembrando da frase de Scott Flanagan: “Tome cuidado com o que você deseja. Você pode acabar por conseguir”.
Através de um som levemente rouco e bastante velho o cérebro de Pedro processa:
_ O que você está fazendo aqui?
Sem saber se deveria correr, olhar a movimentação de um assalto que já parecia estar começando a virar história ou se concentrar na figura esquisita que havia encontrado ali, Pedro percebe se projetar em sua mente uma indagação:
_ Wtf?
Mas o que sai de sua boca quase que inconscientemente é uma tentativa de explicação já pouco impetuosa:
_ Eu,... Eu estou tentando tirar o senhor daqui, te ajudar.
_ Mentira.
Foi a resposta menos rouca depois de uma limpeza nas cordas vocais dada pelo velho.
_ Você está aqui para se ajudar. Para ser o herói de um velho jogado na praça em meio a uma confusão.
Continuou o velho mansa, mas ritmicamente.
Agora ouve o que tenho para lhe dizer antes de seguir seu caminho:
_ Não me incomodo com suas mentiras, nunca me incomodarei, mas me incomodo muito com as mentiras que eu conto para mim. Com as ilusões que ponho diante dos meus sentidos a cada dia.
E mais:
_ Se você tiver interesse em deixar de ser um pequeno besouro iludido pense sobre isso, e procure o que há atrás das cortinas das ilusões que encobrem todo o seu comportamento e processos mentais.
_ E da próxima, pense em não ofender um objeto desconhecido, ou você poderá estar atirando pedras na cabeça de um jacaré achando que é um tronco de árvore.
_ Ilusões.
_ Agora vá e siga seu caminho pequeno besouro iludido.
Depois que o velho soltou sua última palavra e se curvou parecendo estar voltando a sua posição de cochilo confortável, Pedro ameaça um sorriso encharcado de sarcasmo e dá as costas para o velho e para a Avenida que já tem o seu caos amenizado com sons mais distantes e algumas cabeças reaparecendo desconfiadas por detrás dos mais variados objetos transformados em esconderijos.
Pedro ainda em alerta segue para o setor oposto da praça em direção a saída, agora mais desajeitado e desconfortável do que antes, já escolhendo o velho quando olhava para trás, em detrimento da movimentação do assalto em si.
O pequeno besouro iludido vai embora, tentando não ri de si mesmo e entender sobre o que se tratou tudo aquilo. Andando em respeito ao sentido inicial, progride em direção a praia de Copacabana, já sei tanta certeza de para onde estava indo antes de tudo acontecer.
_ Velho estúpido.
Andava e tentava se manter senhor sobre si e da situação.
_ Tomara que tenha tomado um tiro bem no meio daquela orelha grande e torta.
Continuava na tentativa de crescer na diminuição daquele que havia sido seu algoz severos minutos atrás.
Pedro desce a Rua Siqueira Campos, se sente atraído pelo mar como há muito não se percebia, atravessa a Avenida Atlântica, sofrendo um pouco com a demora dos sinais, e rompe até o mundialmente famoso, e de fato belíssimo, Calçadão de Copacabana.
Tentando definir o que estava fazendo, sentindo falta de não estar fazendo algo mais importante, Pedro tenta se convencer que só está dando uma volta para relaxar e faz questão de se permitir uma caminhada. Ao seu ouvido interno, soa como se fosse uma insubordinação ao script diário sempre passível de uma avaliação nota 10 no quesito repetição e competência.
Mas era só uma caminhada despretensiosa, o sentido escolhido foi o do Leme. O sol batia forte na areia amarela e as mangueiras furadas pareciam eficientes na criação de um caminho molhado que levava do
Calçadão até o mar. Mas isso era uma transgressão muito grande para Pedro, que abomina o pensamento de ver o mar mais de perto aquele dia, ficando com os sons das ondas reverberando em suas orelhas numa competição injusta com o som impetuoso do tráfego a sua esquerda.
Conforme andava, pensava e olhava, Pedro tentava captar o que já estava virando assunto numa mesa ou outra dos quiosques.
_ Assalto.
_ Bolsa.
_ Morte.
_ Mulher.
_ Fuga.
_ Rabecão.
Pedro já não queria ouvir mais nada, filtrando os sons com os ouvidos treinados pela música que fazia na época de banda de rock tempo atrás, ele escolhe os sons das ondas, e tenta sobrepujar os outros. Longe demais para isso, o tráfego ainda vence.
Mas tendo os sons como primeiro plano em sua mente, Pedro percebe um segundo plano se formando disfarçadamente. Na idade que tinha, já havia percebido que era dessa forma que sua mente processava mais inspirada seus pensamentos.
Era como uma armadilha, que desengatilhava pensamentos interessantes em segundo plano. Pedro só tinha dúvidas se um dia conseguiria trazer esses pensamentos para o primeiro plano e também duvidava se a mente das outras pessoas funcionava da maneira que a dele exigia. Ainda não havia definido como isso poderia ser perguntado a alguém. Mas agora a vontade de cumprir essa tarefa havia crescido.
Nesse papel de parede começam a aparecer algumas perguntas.
_ O que aconteceu hoje?
_ Quem diabos era aquele velho estúpido?
_ Louco ou coerente?
E a mais difícil de todas:
_ Será que eu sou um pequeno besouro iludido?
Pedro já estava ao final da batente do caminho que faceia o Morro do Leme e que permite uma visão invertida de Copacabana, inclusive com o Cristo Redentor aparecendo ao fundo.
_ Queria estar num barco agora, no meio dessa angra, vendo tudo isso bem de frente. Deve ser lindo. Um dia. Tomara.
Era hora de deixar os sonhos para trás, enterrar algumas dúvidas e voltar. O caminho era longo, e o sol fritava um corpo dentro do terno, mesmo já sem o paletó, que foi tudo que Pedro se permitiu tirar, toda a mudança que ele foi capaz de fazer.
Celular toca, de fato era hora de voltar para a civilização.
Introdução.
6:15 - Uma menina desconhecida de dezesseis anos comigo, numa casa estranha. Sonho engraçado. Mais quinze minutos no despertador.
6:30 - Uma cachoeira com tobogã embaixo de uma grande pedra. Muito bonito. Mais quinze minutos no despertador.
6:45 - Uma moto fazendo curvas estranhas comigo em cima. Pilotando sem capacete. Agora tenho que levantar. A marca do meu ventilador deveria ser Hipnos.
Sempre estacionava na Rua Barata Ribeiro, descia pela Rua Figueiredo Magalhães, até o seu trabalho num edifício da Avenida Nossa Senhora de Copacabana.
Pedro é um homem de hábitos.
_ “Vai pro seu trabalho todo dia.
Sem saber se é bom ou se é ruim”, como diria Raul Seixas.
Sempre discute com seus amigos sobre o vício de fumar com uma pergunta de qualidade duvidosa para alguns:
_ Vocês acham que fumar está mais relacionado com o hábito de fumar e todos os movimentos repetitivos envolvidos ou com o vício químico do fumo?
Ele é desses, que fazem perguntas tendenciosas com dezoito palavras antes do “ou” e seis palavras depois.
Um dia, Pedro decidiu descer pela Rua Siqueira Campos para passar no banco antes do trabalho. Já estava atrasado nesse mês com o valor da pelada-churrascada semanal.
Quando ele vira a esquina da Rua Siqueira Campos com a Avenida Nossa Senhora de Copacabana gritos:
_ É UM ASSALTO!
Em meio a tantos foi o que deu para entender. E o que mais importava também.
Suficiente para que o senso de auto preservação de Pedro gritasse dentro de sua cabeça:
_ PROTEJA-SE!
Ele se projete atrás de um carro. Coração disparado. Visualiza pessoas correndo e tenta em vão entender de onde estão correndo.
Em meio a uma enorme confusão com gritos provindos de várias faixas etárias e gêneros que só eram superados por curtos sons de disparos de armas de fogo ele ainda tentava entender a situação:
_ Que diabos está acontecendo aqui?
E o caos continuava, não dando tempo dele cronogramar seus pensamentos.
Tanta informação visual, auditiva e sinestésica fazia sua cabeça querer se dividir numa metade simétrica de dentro para fora.
Ainda vendo pessoas se empurrando para dentro de lojas e para trás de carros e ônibus no trânsito parado ele busca onde se esconder, um lugar para ir.
Visão turva, o corpo excitado, punhos cerrados numa tensão total. Ainda com tudo isso ele consegue ter uma ideia, só não sabe o quanto ela presta. Mas não há tempo para muitas constatações, é preciso agir, e rápido.
_ A praça!
Com seu grande portão convidativo e charmoso parecia ser o lugar mais razoável a se adentrar e correr.
A essa hora, os macios, grossos e ondulados cabelos de Pedro já pareciam um chumaço de estopa suado de água rás. Suas pupilas dilatadas, procurando o melhor ângulo de tudo já quase cobriam toda a íris de seus olhos castanhos-mel. Sua pele oleosa agora brilhava mais do que qualquer engraxate já havia feito com seus sapatos. Sapatos esses de bicos longos, quadrados e finos, embora caíssem muito bem com seu terno barato agora só serviam para lhe tirar a agilidade e lhe provocar algumas dores.
_ Damn shoes.
Ele se pegava pensando coisas inapropriadas em momentos que pediam tensão, mas que nem sempre apresentavam. Talvez uma patologia, relacionada a falta de medo. Mas dessa vez havia tensão e medo, até demais. Com certeza essa patologia Pedro não tinha.
Desengonçado e suado Pedro segue seu caminho para dentro da praça, tentando perceber se o pior já havia passado por trás de si. Ainda estava bastante tumultuado para arriscar uma olhadela que fosse para trás.
Nesse momento, sobre a cobertura que protege as mesas da praça já não havia muitas almas dispostas a se divertir com xadrezes, damas e baralhos. Todos já iam saindo pelo outro lado da praça com alguns arranhões e muita fadiga.
Pedro continua se projetando a frente numa posição de pato atacando alguém. Tronco e cabeça inclinados para frente, braços desgovernados estendendo palmas malucas para trás, como se sua carne frágil fosse parar um projétil entre os seus dedos compridos e tortos.
Definição.
O VELHO DEITADO é um livro que está sendo escrito a algumas mãos. Mãos de quem quiser escrever. O pontapé está sendo dado agora, quem se habilitar mete a mão e vai. Sem habilitação também pode. Aqui pode. :)